Quem estudou inglês na escola ou em curso costuma chegar à viagem sabendo bastante vocabulário. O que trava a conversa raramente é a falta de palavras: são pequenos hábitos do português que vão junto para o inglês sem pedir licença. Uma preposição trocada, um verbo traduzido ao pé da letra ou um “I want” dito no tom errado podem deixar a frase estranha, confusa ou, em alguns casos, um pouco grosseira, mesmo que a intenção tenha sido a melhor possível.

A boa notícia é que esses erros são previsíveis. Como nascem da estrutura do português, se repetem de pessoa para pessoa, e basta conhecê-los para começar a percebê-los na própria fala. Neste guia, reunimos os deslizes mais frequentes que aparecem em aeroportos, hotéis, restaurantes e lojas, explicamos por que eles acontecem e mostramos a versão que um falante nativo usaria. Não é preciso decorar tudo de uma vez: escolha os três ou quatro que você reconhece em si mesmo e treine primeiro.

Traduzir a estrutura, e não só as palavras

O erro mais comum de todos é montar a frase em português e depois substituir palavra por palavra. O resultado costuma ser compreensível, mas soa artificial, porque cada língua tem combinações fixas de verbo e substantivo. Em português, a gente “faz” o check-in, “tem” fome e “tem” 30 anos. Em inglês, check in já é um verbo, fome e idade se expressam com o verbo be, e muitas ações que pedem “fazer” em português pedem outro verbo, ou nenhum.

A regra prática é aprender expressões inteiras, e não palavras soltas. Quando você memoriza “I'd like to check in” como um bloco, deixa de existir a tentação de inventar “make the check-in”. Os tópicos do site, como check-in no aeroporto, já trazem as frases prontas justamente por isso.

Tradução literal (evite)Como se dizPor quê
I want to make the check-in.I'd like to check in.Check in é verbo; não se “faz” o check-in.
I have 30 years.I'm 30 (years old).Idade usa o verbo be.
I have hunger / I have cold.I'm hungry. / I'm cold.Fome, frio, sede e medo usam be + adjetivo.
Can you make me a favor?Could you do me a favor?A combinação fixa é do a favor.
I will take a shower of 5 minutes.I'll take a quick shower.Duração vem antes ou com for: a five-minute shower.
Is it possible to pay with card?Can I pay by card?A primeira é correta, mas pesada; a segunda é o padrão.

Falsos cognatos que aparecem em toda viagem

Falsos cognatos são palavras parecidas com o português, mas com outro significado. Na viagem, alguns deles surgem o tempo todo: em placas, cardápios e conversas com atendentes. O perigo é que a frase continua gramaticalmente certa, então ninguém vai corrigir você, e o mal-entendido passa despercebido até dar problema.

Os mais traiçoeiros são os que mudam o sentido da frase inteira. Pedir “a pretend reservation” não existe; dizer “I pretend to stay three days” soa como “eu finjo que vou ficar três dias”. O artigo falsos cognatos na viagem aprofunda o tema; aqui vão os campeões de confusão.

We intend to stay for three days.

Pretendemos ficar três dias.

Frase comum na imigração; use intend ou plan.

Actually, I ordered the chicken, not the fish.

Na verdade, eu pedi o frango, não o peixe.

Palavra em inglêsParece…Significa de verdade
pretendpretenderfingir (pretender é intend ou plan)
pushpuxarempurrar (puxar é pull)
exitêxitosaída
actuallyatualmentena verdade (atualmente é currently ou nowadays)
parentsparentespais (parentes são relatives)
costumecostumefantasia, traje típico (costume no sentido de hábito é habit ou custom)
lunchlanchealmoço (lanche é snack)
assistassistirajudar (assistir a um filme é watch)
exquisiteesquisitorefinado, primoroso (esquisito é weird ou strange)

Preposições: o detalhe que mais denuncia o brasileiro

Preposição é a parte da língua que menos obedece à lógica, e por isso é onde quase todo estrangeiro tropeça. O português usa “em” para quase tudo, enquanto o inglês distingue in, on e at conforme o tipo de lugar ou de tempo. Além disso, alguns verbos pedem preposições diferentes das nossas.

Não vale a pena estudar regras longas antes da viagem. É mais eficiente aprender os casos que você realmente vai usar: chegar a uma cidade, estar em um voo, depender de alguma coisa, ficar em um hotel.

ErradoCertoObservação
I arrived to London yesterday.I arrived in London yesterday.Arrive in para cidades e países; arrive at para lugares menores, como o aeroporto.
It depends of the price.It depends on the price.Depend sempre pede on.
I'm in the flight 302.I'm on flight 302.Em meios de transporte grandes, usa-se on: on the bus, on the train, on the plane.
I'm here since Monday.I've been here since Monday.Com since e for, o inglês usa o present perfect.
We stayed in the Hilton.We stayed at the Hilton.Hospedagem em um hotel específico costuma levar at.
See you in Monday.See you on Monday.Dias da semana e datas usam on.

Substantivos incontáveis no plural

Algumas palavras que em português aceitam plural sem problema são incontáveis em inglês. Isso significa que não recebem s, não combinam com a ou an e pedem much em vez de many. Por coincidência, várias delas são justamente palavras de viagem: informação, bagagem, conselho, dinheiro e equipamento.

Quando precisar contar, use uma palavra de medida antes: a piece of luggage, a piece of advice, some information. Em aeroportos, você vai ouvir “How many bags are you checking?” justamente porque bag é contável e resolve o problema.

  • Incontáveis comuns em viagem: information, luggage, baggage, advice, money, furniture, equipment, homework, traffic, weather.
  • Contáveis que ajudam: bags, suitcases, tips, dollars, euros, pounds.
  • Atenção: weather nunca vem com a. Diga “What lovely weather!”, e não “What a lovely weather!”.

I need some information about the tour.

Preciso de algumas informações sobre o passeio.

Nunca informations.

How much luggage can I take?

Quanta bagagem posso levar?

Luggage e baggage são incontáveis; bags é contável.

Can you give me some advice on where to eat?

Você pode me dar umas dicas de onde comer?

Advice é incontável; o verbo é advise.

I don't have much money left.

Não tenho muito dinheiro sobrando.

Perguntas sem auxiliar e respostas secas

Em português, uma pergunta muitas vezes é só uma afirmação com entonação de pergunta: “Você tem quarto livre?”. Em inglês, isso funciona em conversas informais, mas a estrutura padrão pede um verbo auxiliar no começo, como do, does, is, are, can ou could. Esquecer o auxiliar não impede a compreensão, mas deixa a fala com cara de iniciante e às vezes confunde o interlocutor sobre se aquilo é pergunta ou afirmação.

Outro hábito brasileiro é responder perguntas de sim ou não com apenas “Yes” ou “No”. Não está errado, mas o inglês costuma completar com o auxiliar (“Yes, I do”, “No, it isn't”) ou acrescentar algo, o que soa mais simpático. Um “No” isolado, dito sem sorriso, pode parecer seco.

Do you have any rooms available tonight?

Vocês têm quartos disponíveis hoje à noite?

E não “You have rooms?”.

Does this bus go downtown?

Este ônibus vai para o centro?

Com he, she e it, o auxiliar é does.

What do you call this in English?

Como se chama isso em inglês?

Evite “How do you call…?”, tradução direta de “como”.

No, thanks, I'm fine.

Não, obrigado, estou bem.

Uma recusa curta, mas acompanhada de thanks.

Tom e registro: quando “I want” soa rude

Este talvez seja o erro com mais consequência social. No Brasil, dizer “quero um café” no balcão é perfeitamente normal, porque o tom de voz e o “por favor” suavizam o pedido. Em inglês, “I want a coffee” não é proibido, mas em atendimento soa direto demais, quase infantil, principalmente se vier sem please. Do mesmo modo, imperativos como “Give me the bill” ou “Bring water” podem parecer ordens.

Os falantes de inglês suavizam pedidos com estruturas indiretas: I'd like, Could I have, Can I get, Would you mind. Elas não são “formais demais”: são o jeito neutro de pedir qualquer coisa a um desconhecido. O artigo como ser educado em inglês explica em detalhes como escolher entre elas.

Soa bruscoSoa natural
I want the menu.Could I see the menu, please?
Give me a coke.Can I get a Coke, please?
Bring the bill.Could we have the check (EUA) / bill (Reino Unido), please?
Repeat.Sorry, could you say that again?
I want to change the room.Would it be possible to change rooms?

Pronúncia: vogais extras e sons que mudam o sentido

Na pronúncia, o deslize mais típico é acrescentar uma vogal no fim de palavras terminadas em consoante. O português quase não termina sílabas em consoantes como k, d, t ou g, então o cérebro completa: “bigui”, “Facebúqui”, “ticketi”. Na maioria das vezes, o nativo entende, mas em palavras curtas isso pode criar outra palavra. Outro problema frequente é pronunciar o final -ed como uma sílaba extra em todos os verbos: walked tem uma sílaba só (UÓKT), e não “uóquED”.

Também vale atenção às vogais longas e curtas. Ship (navio) e sheep (ovelha), live (morar) e leave (sair), full (cheio) e fool (bobo) se distinguem apenas pela duração e pela qualidade da vogal. Em contexto, a confusão costuma se resolver, mas treinar esses pares ajuda muito. O artigo pronúncia para viajantes brasileiros traz um roteiro prático.

I'd like a big bag.

Eu gostaria de uma sacola grande.

Termine big e bag na consoante, sem “i” no final.

We walked to the hotel.

Fomos a pé até o hotel.

Walked: uma sílaba, terminando em som de t.

When do we leave?

Quando partimos?

Leave tem vogal longa (LIIV); live é curta.

Como corrigir esses erros sem travar na hora

Conhecer os erros é útil, mas pensar neles o tempo todo durante a conversa pode deixar você travado. O objetivo não é falar sem nenhum erro, e sim ser compreendido com tranquilidade e soar educado. Nativos estão acostumados a ouvir inglês com sotaque e pequenas falhas gramaticais; o que realmente atrapalha a comunicação é o silêncio, o tom involuntariamente rude ou a palavra que muda o sentido da frase.

Por isso, priorize nesta ordem: primeiro o tom (pedidos com could e please), depois os falsos cognatos que alteram o significado, em seguida as preposições mais frequentes e, por fim, os detalhes de pronúncia. Se perceber um erro logo depois de falar, corrija com naturalidade: “Sorry, I mean…” resolve. E se não entender algo, use as técnicas do tópico quando você não entende.

  • Escolha três erros desta lista que você reconhece em si mesmo e treine as versões certas em voz alta.
  • Grave-se lendo as frases dos tópicos e compare com o botão de ouvir do site.
  • Prepare as frases de cada etapa da viagem com antecedência, como blocos prontos.
  • Na hora, prefira frases curtas e simples a frases longas traduzidas do português.
  • Se errar, corrija e siga em frente: ninguém espera perfeição de um viajante.

Sorry, I mean Tuesday, not Thursday.

Desculpe, quis dizer terça, não quinta.

Sorry, my English isn't perfect.

Desculpe, meu inglês não é perfeito.

Útil para quebrar o gelo, mas não precisa repetir a cada frase.

Para fechar

Quase todos os erros deste guia têm a mesma origem: o português pensando por trás do inglês. Traduzir estruturas, usar “em” para tudo, pluralizar informação e pedir com “eu quero” são reflexos naturais de quem fala português desde criança, e não sinais de que você “não sabe inglês”. Reconhecer o padrão é o primeiro passo para quebrá-lo.

Leve para a viagem um conjunto pequeno de frases prontas e bem treinadas para cada situação, e deixe a criatividade para quando estiver mais confortável. Com o tempo, as versões corretas passam a sair sozinhas, e a conversa fica muito mais leve para os dois lados.